O texto da seguir é uma resenha de Geraldo Magella de Menezes Neto sobre o capítulo “Promessa e esperança, a Amazônia e o êxodo judeu”, de Liliane Costa de Oliveira e Marilina Conceição Bessa Serra Pinto, presente no livro "O paradoxo da Amazônia: da colonização à decolonialidade (séculos XVI-XXI)", organizado por Eduardo Gomes da Silva Filho, Fernando Roque Fernandes e Daniel Barros de Lima, publicado em 2023 pela editora CRV.
Trata-se de um estudo sobre a migração e a vida dos judeus na Amazônia, a partir do século XIX. Um trabalho importante que mostra a diversidade de povos que vivem na região amazônica.
Sobre as autoras: Liliane Costa de Oliveira é Doutora pelo Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia (PPGSCA/UFAM); Mestra em Sociologia (PPGS/UFAM); Ciêntista social (UFAM), Bacharel em Ciências Teológicas (FBNSB/AM). Faz parte do Núcleo de Estudos e Pesquisas de Religião, Cultura e Imaginário (OIKOUMENE/UFAM). Compõe o corpo docente da Secretaria Estadual de Educação do Amazonas (SEDUC).
Marilina Conceição Bessa Serra Pinto é professora do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas; lidera o OIKOMENE-Grupo de Estudos e Pesquisas em Religião, Cultura e Imaginário; pós-doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Metafísica da Universidade de Brasília.
As autoras, em “Promessa e esperança, a Amazônia e o êxodo judeu”, têm por objetivo discorrer acerca da trajetória histórica dos judeus e das motivações que os levaram a virem para a Amazônia: a “Eretz da promessa”. Trata-se de uma discussão que conecta o passado e o presente, o viver e a liberdade. (p. 283)
Oliveira e Pinto argumentam que a história dos judeus está perpassada pela luta por liberdade e por um lugar seguro. A Amazônia conectou passado e presente no que tange à marginalização social de um grupo de escravos fugitivos do Egito e a conquista de Canaã. Portanto, os fios dessa trama sócio-histórica que liga a Amazônia aos judeus é um movimento por uma terra, mas uma terra distante das mazelas sociais, onde a exploração não fosse realidade. Logo, os grupos de judeus marroquinos sonharam com a Amazônia como o lugar de resgate de sua cidadania, do trabalho, da liberdade e de uma vida digna. (p. 283)
Conforme nos explicam as autoras, a migração de judeus para a Amazônia está relacionada ao contexto do século XVII. A Amazônia do século XVII ficou conhecida internacionalmente como o futuro celeiro do mundo. Por esse motivo e outros, os judeus empreenderam uma nova onda emigratória na expectativa de encontrar nesse lugar uma nova Canaã. Neste sentido, após trezentos anos de reclusão, marginalização e perseguição no Marrocos, a Amazônia surgiu para os judeus como o Gan-Eden (Jardim do Paraíso), isto é, a nova “Terra da Promissão”. (p. 287)
Quanto aos judeus marroquinos, eles não eram escravos, mas sua condição social era miserável, foram injustiças e levados a se submeterem a condições desumanas, e migrar para a Amazônia foi "provisão de Yahweh", já que a liberdade é o primeiro agradecimento dos judeus a Deus. (p. 287)
Nesse contexto de busca pela liberdade, terra e promessa são elementos constitutivos um do outro na cultura hebraica, haja vista, que os judeus tentaram cultivar uma relação afetiva com o lugar onde viveram em função da promessa de que herdariam uma “terra que emana leite e mel”, isto quer dizer, que Canaã, simbolicamente, pode estar em qualquer lugar, mas que necessariamente seja um lugar da liberdade, onde a vida acontece com seus símbolos e valores. (p. 288)
Os judeus que começaram a chegar à Amazônia a partir de 1810, a maioria deles eram precedentes de Tanger, Tetuan, Fez, Rabat, Salé, Marrakesh e outras vilas e cidades marroquinas. (p. 288)
Para as autoras, os judeus que chegaram na Amazônia vieram se refugiar da discriminação social e perseguição religiosa, ou seja, em busca da emancipação política e da liberdade. Neste sentido, a busca pela “Terra Prometida” encontra na Eretz Amazônia a ressignificação da Nova Canaã, onde os judeus idealizaram um novo projeto de vida: nessa forma de viver, construíram uma nova história, uma história de liberdade, onde a identidade religiosa não precisava ser ocultada. (pp. 288-289)
Assim, Oliveira e Pinto ressaltam que a inserção judaica na Amazônia desfrutou da liberdade religiosa que tanto almejavam, pois, em muitos países, a sua religiosidade foi tratada como heresia, levando muitos judeus à morte por causa de suas crenças. Além disso, puderam vislumbrar oportunidades de negócios e outros atrativos. (p. 289)
Na Amazônia, os judeus, através de inúmeras atividades, algumas delas pioneiras, deixaram suas marcas na região promovendo a fundação de povoamentos, a criação de instituições de âmbito econômico e social, ou mesmo atuando em profissões liberais e no funcionalismo público de médio e alto escalão, bem como o exercício de cargos políticos. (p. 289)
Na Amazônia, o capítulo aponta que os judeus viveram a experiência de libertação. Belém do Pará foi a cidade onde as primeiras sinagogas foram criadas: Shaar Hashamaim (1823 ou 1824) e Essel Avraham (1826 ou 1828), ademais a comunidade de Manaus produzia um jornal chamado Folha Israelita, que funcionou de 1949 a 1962. (p. 291)
O Brasil possui a segunda maior população judaica da América Latina, em sua maioria descendentes dos sefarditas (originários da Península Ibérica e do norte de África, no Marrocos) e ashkenazitas (originários da França, Alemanha e Leste Europeu). (p. 293)
Nesse sentido, o capítulo traz uma importante contribuição para mostrar as experiências da migração e da vida dos judeus no Brasil, em específico na Amazônia. Oliveira e Pinto relacionam essa experiência com a própria religião judaica e suas ideias da promessa de uma “terra prometida”, algo que vem desde o Antigo Testamento, além do contexto de atração da Amazônia como um lugar de enriquecimento. Destacam, assim, a diversidade dos povos que vivem na região. Uma leitura imperdível para os que querem conhecer mais sobre a história da Amazônia.
Referências:
OLIVEIRA, Liliane Costa de; PINTO, Marilina Conceição Bessa Serra. Promessa e esperança, a Amazônia e o êxodo judeu. In: SILVA FILHO, Eduardo Gomes da; FERNANDES, Fernando Roque; LIMA, Daniel Barros de. (orgs.). O paradoxo da Amazônia: da colonização à decolonialidade (séculos XVI-XXI). Curitiba: CRV, 2023, p. 283-296.
Resenha por Geraldo Magella de Menezes Neto, doutor em História Social da Amazônia na Universidade Federal do Pará (UFPA). Professor da Secretaria Municipal de Educação de Belém (SEMEC) e da Secretaria de Estado de Educação do Pará (SEDUC). Administrador da página “História Pública na escola” no instagram (@historiapublicanaescola).
